Europa contra a Starlink: Vodafone e mais três gigantes querem ligar o teu telemóvel a satélites

Imaginem estar no meio da serra, sem uma única barra de rede, e mesmo assim conseguir enviar uma mensagem, fazer uma chamada ou até abrir o mapa no telemóvel. Sem antena especial, sem telefone satélite, com o mesmo smartphone que têm no bolso. É exatamente isso que a Starlink, de Elon Musk, quer vender em todo o mundo… e as maiores operadoras da Europa acabaram de mostrar que não estão dispostas a deixar esse negócio só para ela. 🛰️

A Vodafone, a Orange, a Telefónica e a Deutsche Telekom assinaram uma carta de intenções para estudarem uma candidatura conjunta ao espetro europeu de satélite na banda dos 2 GHz, a "autoestrada" de frequências que permite ligar satélites diretamente aos telemóveis. E, como seria de esperar, os Estados Unidos já vieram avisar que não gostam nada da ideia.

Logótipos da Vodafone, Orange, Telefónica e Deutsche Telekom à esquerda e da Starlink à direita, separados por uma linha

Quatro das maiores operadoras europeias de um lado, a Starlink do outro.

O que foi anunciado

O anúncio saiu a 19 de outubro, num comunicado conjunto das quatro operadoras. Em resumo:

  • Assinaram uma carta de intenções para explorar uma candidatura conjunta à futura atribuição de espetro para serviços móveis por satélite (MSS) na Europa.

  • O objetivo é oferecer serviços Direct-to-Device (D2D), ou seja, satélite diretamente no telemóvel.

  • O acesso será aberto e não discriminatório a todas as operadoras móveis, não só às quatro. A ideia é funcionar como uma plataforma grossista a que outras redes se podem ligar.

  • As quatro vão construir na Europa as infraestruturas terrestres e as funções de coordenação e monitorização, mas não vão investir diretamente numa constelação de satélites. Essa parte fica a cargo de um parceiro de satélites que ainda vai ser escolhido.

As operadoras dizem que querem dar cobertura universal às zonas mal servidas, tornar as redes mais resilientes, proteger as comunicações críticas e apoiar o desenvolvimento de uma constelação europeia. Por trás do discurso da "soberania" há também uma preocupação muito comercial: não querem acabar a revender o serviço de satélite de outra empresa, nas condições dessa empresa.

Um pormenor importante: isto é, para já, uma carta de intenções, não uma candidatura fechada. E as parcerias de satélite que cada operadora já tem continuam em vigor.

Satélite direto no telemóvel: como funciona?

Até agora, para teres internet por satélite precisavas de uma antena (como a da Starlink que se põe no telhado ou na autocaravana) ou de um telefone satélite próprio. A tecnologia Direct-to-Device muda isso: os satélites, em órbita baixa, funcionam quase como torres de rede no espaço e falam diretamente com smartphones normais, sem alterações.

Na prática, quando ficas sem rede terrestre, o telemóvel passa a ligar-se ao satélite. E, segundo a Comissão Europeia, a banda dos 2 GHz é suficientemente larga para permitir não só voz e SMS, mas também dados em banda larga.

Porquê a banda dos 2 GHz?

Na Europa, as frequências de satélite que melhor servem para isto estão na chamada banda MSS dos 2 GHz (1980–2010 MHz e 2170–2200 MHz). Ficam mesmo ao lado das frequências usadas pelas redes móveis, o que torna mais simples os telemóveis e os chips suportarem-nas.

As licenças atuais desta banda expiram em maio de 2027. Estão hoje nas mãos da EchoStar e da Viasat e, segundo a Light Reading, a parte da EchoStar vai passar para a SpaceX, dona da Starlink, depois de esta lhe ter comprado espetro.

Em maio de 2026, a Comissão Europeia propôs novas regras para a próxima atribuição. Em traços gerais, a banda fica dividida em três partes:

  1. Uma para uso governamental, ligada ao IRIS², a futura constelação europeia de comunicações seguras.

  2. Uma com prioridade para novos operadores europeus, que é precisamente a fatia que as quatro operadoras querem disputar.

  3. Uma aberta a empresas europeias e de fora da UE, onde vão competir nomes como a Starlink, a Amazon Leo ou a AST SpaceMobile.

A proposta ainda está a ser analisada no Parlamento Europeu e não está aprovada. A atribuição do espetro está prevista para 2027.

Falta uma peça: os satélites

Aqui está o "mas" desta história. Nenhuma das quatro operadoras tem foguetões nem fábrica de satélites, por isso vão precisar de um parceiro para a parte espacial. O comunicado não diz quem, mas a imprensa espanhola aponta a norte-americana AST SpaceMobile como a candidata mais forte, por já ter tecnologia pronta. Ironia: seria uma empresa dos EUA a ajudar a Europa a ser mais independente dos EUA. 😅

A AST não é estranha a este grupo: tem uma joint venture com a Vodafone, a Satellite Connect Europe, e a Orange também já trabalha com ela. Segundo a imprensa espanhola, o calendário aponta para o arranque do serviço comercial em 2029.

Lançamento de satélites BlueBird da AST SpaceMobile, em agosto de 2026. Foto: U.S. Space Force

A Starlink e a resposta dos EUA

A Starlink tem mais de 10 mil satélites em órbita e já não se contenta em ser a solução para quem vive no meio do nada. Com o serviço direto para telemóveis, quer disputar os clientes das operadoras tradicionais, e é isso que deixa as telecomunicações europeias em modo defensivo. Curiosamente, algumas destas operadoras também trabalham com a Starlink: a Virgin Media O2, da Telefónica, já tem satélite no telemóvel com a Starlink no Reino Unido, e a Deutsche Telekom planeia oferecer o serviço móvel da Starlink em 2028.

Satélites Starlink prestes a ser libertados em órbita. Foto: SpaceX

Do outro lado do Atlântico, a reação não demorou. Numa entrevista ao Financial Times, o embaixador dos EUA junto da UE, Andrew Puzder, avisou que, se a Europa limitar o acesso das empresas norte-americanas a este espetro, as empresas europeias podem enfrentar represálias "muito devastadoras", tendo em conta o tamanho do mercado dos EUA. O presidente da FCC, o regulador norte-americano, Brendan Carr, já tinha dito que pode impor limites semelhantes aos operadores de satélite europeus.

A SpaceX também criticou a proposta e diz que ela pode piorar o serviço na Ucrânia, onde a Starlink tem sido essencial. Só que a polémica recente com a interrupção do Starshield, a versão militar da Starlink, na Ucrânia acabou por reforçar o receio europeu de depender de tecnologia que não controla. Este é, no fundo, o grande tema: quem manda no sinal de emergência dos telemóveis europeus quando as coisas correm mal?

E em Portugal, o que muda?

A Vodafone é a única das quatro que opera em Portugal, mas como o acesso prometido é aberto a todas as operadoras, este projeto pode chegar também a clientes de outras redes, se elas aderirem.

E há uma coisa que muita gente não sabe: a Vodafone Portugal já anunciou, em julho, que quer lançar satélite direto no telemóvel até ao final de 2027, com a Satellite Connect Europe e os satélites BlueBird da AST SpaceMobile. A promessa é fazer chamadas, enviar SMS e usar dados com um smartphone 4G/5G normal, em zonas sem cobertura terrestre ou em emergências como tempestades e falhas de energia, depois de garantidas as autorizações de espetro. Já o serviço móvel da Starlink ainda não está disponível em Portugal.

Península Ibérica à noite vista da Estação Espacial Internacional, com as luzes de Portugal e Espanha e a curvatura da Terra

Portugal e Espanha vistos do espaço, à noite. É desta órbita baixa que os satélites vão chegar ao teu telemóvel.

Para nós, o impacto mais óbvio está nas zonas onde a rede ainda falha: aldeias do interior, serras, trilhos, praias mais isoladas ou o mar. E nos momentos em que a rede terrestre vai abaixo. Não é para substituir o 5G nas cidades, é para não ficares sem comunicações quando mais precisas.

O calendário

  • 27 de maio de 2026: a Comissão Europeia propõe as novas regras para a banda dos 2 GHz.

  • Julho de 2026: a Vodafone Portugal anuncia satélite no telemóvel até ao final de 2027.

  • 19 de outubro de 2026: Vodafone, Orange, Telefónica e Deutsche Telekom assinam a carta de intenções.

  • Maio de 2027: expiram as licenças atuais da banda dos 2 GHz.

  • 2027: atribuição do novo espetro.

  • 2029: arranque previsto do serviço comercial do consórcio, segundo a imprensa espanhola.

A minha opinião

Gosto da ideia de ter satélite no telemóvel sem pagar por um equipamento extra, e ainda mais da parte do acesso aberto a todas as operadoras. Se funcionar como prometido, quem vive ou anda por zonas sem rede vai sentir mesmo a diferença.

Mas há muita coisa por decidir: as regras europeias ainda não estão aprovadas, falta escolher o parceiro de satélites e a tensão com os EUA pode complicar tudo. E a Starlink não vai ficar parada à espera de 2029. Uma coisa é certa: a corrida ao satélite no telemóvel chegou à Europa, e nós, consumidores, só temos a ganhar com mais concorrência.

E vocês, usavam satélite no telemóvel? Contem-me lá no Instagram!

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Fontes: comunicado conjunto da Deutsche Telekom, Orange, Telefónica e Vodafone; Comissão Europeia; The Verge; Light Reading. Imagens: logótipos das respetivas marcas; U.S. Space Force; SpaceX; NASA.

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