Quanto custa carregar um carro elétrico em Portugal em 2026? Preços, cartões, apps e o que diz a lei

Olá meus amigos! Esta é das perguntas que mais me fazem desde que ando de carro elétrico: quanto custa carregar um carro elétrico em Portugal? E logo a seguir vêm as outras: preciso de cartão? Posso pagar pela app? Que apps é que funcionam cá? A resposta honesta à primeira é: depende muito de onde carregam. O mesmo kWh pode custar quase nada em casa ou mais de 0,60 € num posto rápido.

Por isso fui ver os preços publicados pela MOBI.E, pela ERSE e pelos próprios operadores, li a lei nova (portuguesa e europeia) sobre pagar sem contrato, fiz as contas para 100 km e para uma carga completa, e conto-vos também como eu faço no meu dia a dia. Os preços são de 28 de outubro de 2026, com IVA. No fim têm todas as fontes. Vamos a isso! ⚡

Em resumo

  • Em casa: cerca de 0,14 €/kWh na tarifa bi-horária (horas de vazio) e cerca de 0,21 €/kWh na tarifa simples (tarifas reguladas da ERSE, com IVA). Com painéis solares, a energia que sobra durante o dia fica praticamente a custo zero.

  • Rede pública MOBI.E: mediana de 0,37 €/kWh (preço ad hoc, com IVA).

  • EDP: mediana de 0,13 €/kWh. Galp: mediana de 0,60 €/kWh (0,65 €/kWh nos postos de 150 kW ou mais).

  • IONITY (onde eu carrego na A1, pela app): mediana de 0,51 €/kWh na rede MOBI.E; na própria IONITY, 0,63 €/kWh sem registo e 0,59 €/kWh na app, ou a partir de cerca de 0,37 €/kWh com subscrição.

  • Continente Plug&Charge: 0,35 / 0,41 / 0,45 €/kWh (normal, rápido, ultrarrápido), com 0,10 €/kWh de volta em compras de 30 € ou mais.

  • Lidl: os postos que fui ver são da rede Galp e custam 0,60 €/kWh. Não contem com carregamento grátis.

  • Tesla Supercharger (preço avulso na rede MOBI.E): mediana de 0,60 €/kWh, entre 0,46 e 0,83 €/kWh.

  • Cartão? Já não é obrigatório. A lei obriga os postos públicos a deixar carregar sem contrato (ad hoc), por app, QR code ou cartão bancário. Os postos de 50 kW ou mais nas principais estradas têm de ter leitor de cartão bancário a partir de 1 de janeiro de 2027.

  • 100 km (a 17 kWh/100 km) custam cerca de 2,40 € em casa em vazio e 10,20 € a 0,60 €/kWh.

Ilustração minimalista de um carro elétrico ligado a um carregador de parede numa casa com painéis solares no telhado e o sol por cima


Como eu carrego: quase sempre em casa, com o sol

Vou começar pela minha experiência, porque é ela que explica a conclusão deste artigo. Em novembro de 2025 instalei no meu estúdio um sistema completo de painéis solares com uma Tesla Powerwall 3, com a Tesla e a Solmaior. Contei tudo neste vídeo: Adeus Contas de Luz? A Powerwall da Tesla Mudou Tudo Aqui em Casa!

Desde aí, carrego o carro quase sempre em casa e durante o dia, quando os painéis estão a produzir. A energia vem do sol, e o que não gasto logo fica guardado na Powerwall para a noite. Na prática, cada kWh que meto no carro a partir do sol tem um custo marginal praticamente zero. O único "custo" é aquilo que deixaria de receber se vendesse esse excedente à rede, e isso vale muito menos do que um kWh comprado. (O investimento no sistema, esse, claro que existe; falo dele no vídeo.)

Fora de casa, só carrego em "emergência", ou seja, quando vou a Lisboa por compromissos com marcas. Aí, na A1, carrego nos IONITY de Leiria: o IONITY Leiria N-S, no sentido Porto–Lisboa, e o IONITY Leiria S-N, no sentido Lisboa–Porto, ambos na área de serviço Cepsa. E pago com a app da IONITY, sem subscrição: abro a app, escolho o posto e pago com o cartão associado, sem precisar de cartão de carregamento. Perto da A1 há ainda o IONITY Estarreja, na N109, a 1,5 km da saída para a A1 e a A29, e a marca diz ter o Porto Boavista em construção, a 1 km da saída da A1/A28/A20. Procuro sempre os postos mais rápidos que houver, e há uma razão técnica para isso: o meu carro elétrico tem arquitetura de 800 V.

O que é a arquitetura de 800 V e porque é que carrega mais depressa?

A maior parte dos carros elétricos trabalha a cerca de 400 V. Alguns, sobretudo os mais recentes e os de gama mais alta, trabalham a 800 V. E isto faz uma diferença enorme nos postos rápidos. Em palavras simples:

  • Potência = tensão × corrente. Para carregar a 200 kW, um carro de 400 V precisa de cerca de 500 amperes. Um carro de 800 V precisa só de cerca de 250 amperes para a mesma potência.

  • Menos corrente quer dizer muito menos calor. O calor nos cabos e nas ligações cresce com o quadrado da corrente: metade da corrente dá cerca de um quarto do calor. É o calor que obriga o carro e o posto a baixar a potência.

  • Por isso, a potência alta aguenta-se mais tempo. Num carro de 800 V, a curva de carregamento costuma ficar lá em cima durante mais tempo, em vez de cair logo. O resultado são cargas de 10 a 80 % em cerca de 20 minutos nos melhores casos. O novo BMW i3, por exemplo, também é de 800 V e a marca anuncia cerca de 21 minutos dos 10 aos 80 % (escrevi sobre ele aqui).

  • Cabos mais finos e mais leves, e menos perdas de energia pelo caminho.

Há um pormenor importante: para tirar partido disto, o posto também tem de trabalhar bem a alta tensão e ter potência a sério (150 kW ou mais). Num posto antigo, limitado a 400 V, um carro de 800 V tem de converter a tensão e carrega mais devagar. É por isso que, na A1, eu vou sempre aos ultrarrápidos: é a forma de parar 20 minutos em vez de uma hora.

Esquema simples a comparar 400 V com 500 amperes e 800 V com 250 amperes para os mesmos 200 kW, com menos calor nos 800 V

Quanto custa carregar um carro elétrico em casa?

Em casa paga-se o preço do vosso contrato de eletricidade. Como cada tarifário é diferente, usei as tarifas reguladas da ERSE em vigor desde 1 de outubro de 2026 (potências até 20,7 kVA), e somei o IVA de 23 %:

  • Tarifa simples: 0,1711 €/kWh sem IVA, ou seja, cerca de 0,21 €/kWh com IVA.

  • Tarifa bi-horária, horas de vazio: 0,1143 €/kWh sem IVA, cerca de 0,14 €/kWh com IVA.

  • Tarifa bi-horária, fora de vazio: 0,2045 €/kWh sem IVA, cerca de 0,25 €/kWh com IVA.

Usei o IVA de 23 %; nalguns contratos, parte do consumo tem IVA reduzido, o que baixa ainda mais estes valores. A isto junta-se a potência contratada, que pagam de qualquer forma, e pequenas taxas. No mercado livre há ofertas mais baratas e mais caras, por isso vale a pena usar o simulador da ERSE. A regra de ouro: se carregam em casa sem painéis, a bi-horária e as horas de vazio (à noite) são as vossas amigas. Se têm painéis solares, carreguem de dia, com o sol.

Quanto custa carregar nos IONITY?

A IONITY é uma rede só de postos ultrarrápidos, em autoestradas e grandes eixos. Segundo a própria marca, a 13 de outubro de 2026 tinha 106 pontos em 20 locais em Portugal. Nos dados da MOBI.E de 28 de outubro de 2026, os pontos IONITY ligados à rede eram 98, todos de 150 kW ou mais, com uma mediana de 0,51 €/kWh (preço ad hoc, com IVA).

Há uma novidade importante: com a mudança da lei, a IONITY diz que já se pode carregar nos seus postos diretamente com a IONITY. Antes era preciso um contrato com um prestador como a miio. Agora há três caminhos:

  • IONITY Direct: lê-se o QR code no posto, mete-se o cartão de pagamento e carrega-se, sem registo nem mensalidade.

  • App IONITY, sem subscrição.

  • Subscrição (Power ou Motion), com o cartão de carregamento IONITY incluído.

IONITY em Portugal Preço por kWh Mensalidade
IONITY Direct (QR code, sem registo) 0,63 € —
App IONITY, sem subscrição 0,59 € —
Motion 0,44 a 0,46 € 5,99 €/mês ou 59,99 €/ano
Power 0,37 a 0,38 € 11,99 €/mês ou 119,99 €/ano
Rede MOBI.E (mediana, preço ad hoc) 0,51 € —

Preços IONITY para Portugal lidos em ionity.eu a 28/10/2026, com IVA. A IONITY avisa que são "os preços mínimos atuais", que podem mudar a qualquer momento e que o preço no posto pode ser superior. O intervalo do Motion e do Power corresponde aos dois valores publicados para o pagamento mensal e anual. Mediana MOBI.E: 98 pontos, 28/10/2026.

Vale a pena a subscrição? Fiz as contas face aos 0,59 € da app: o Motion paga-se a partir de uns 40 a 46 kWh por mês, e o Power a partir de uns 55 a 57 kWh por mês, mais ou menos uma carga grande. Eu uso a app sem subscrição, porque só carrego na A1 de vez em quando e assim não compensa. Para quem faz a autoestrada todas as semanas, compensa. Confirmem sempre o preço na app ou no posto antes de carregar.

Quanto custa carregar na rede pública MOBI.E?

Na rua, os preços variam muito. Segundo os dados que a MOBI.E publica (tratados pelo combustivel.com.pt), a 28 de outubro de 2026 o preço ad hoc mediano da rede era 0,37 €/kWh, com IVA, em 12 244 pontos com preço por kWh. Os 10 % de pontos mais baratos ficavam até 0,10 €/kWh e o mais caro chegava a 1,22 €/kWh.

Estes são os principais operadores que interessam a quem pergunta "onde é o carregamento mais barato":

Onde carregar Preço por kWh (com IVA) Notas
Em casa com painéis solares ≈ 0 € (custo marginal) o excedente do dia
EDP (mediana) 0,13 € 0,23 € em AC, 0,10 € em DC até 150 kW, 0,17 € em DC de 150 kW ou mais
Em casa, bi-horária (vazio) 0,14 € tarifa regulada ERSE
Em casa, tarifa simples 0,21 € tarifa regulada ERSE
Continente Plug&Charge 0,35 / 0,41 / 0,45 € normal / rápido / ultrarrápido; −0,10 €/kWh com compras de 30 € ou mais
Mediana da rede MOBI.E 0,37 € 12 244 pontos
IONITY (mediana MOBI.E) 0,51 € só ultrarrápidos; na IONITY direta, 0,63 € sem registo
Galp (mediana) 0,60 € 0,65 € nos postos de 150 kW ou mais
Lidl (postos da rede Galp) 0,60 € nos postos que consultei
Tesla Supercharger (preço avulso MOBI.E) 0,60 € entre 0,46 € e 0,83 €; preço dinâmico

Preço ad hoc (sem contrato) publicado pela MOBI.E, componente por kWh, dados de 28/10/2026. Casa: tarifas transitórias ERSE em vigor desde 01/10/2026, com IVA a 23 %, sem potência contratada. Continente: preços oficiais do Plug&Charge.

Atenção a uma coisa que engana muita gente: estes valores são só a parte por kWh. Segundo os mesmos dados, mais de 11 mil pontos cobram também (ou só) ao minuto, com uma mediana de 0,04 €/min. Meia hora ligado a 0,04 €/min são mais 1,20 €. Por isso, o preço da EDP pode parecer mais baixo do que em casa, mas confirmem sempre o tarifário completo na app ou no posto antes de ligar o cabo.

Como se forma o preço na MOBI.E (OPC, CEME, EGME e impostos)

O preço de um carregamento na rede MOBI.E junta várias partes. Em palavras simples:

  • OPC (operador do ponto de carregamento): quem instala e explora o posto (Galp, EDP, Powerdot, IONITY…). Cobra pela utilização do posto, por kWh, por minuto, por sessão ou uma mistura.

  • CEME (comercializador de eletricidade para a mobilidade elétrica): quem vos vende a energia e vos manda a fatura, através do cartão ou da app. Cada CEME tem o seu preço, por isso o mesmo posto pode sair mais caro ou mais barato conforme o cartão. Na parte da energia entram também as tarifas de acesso às redes (aprovadas pela ERSE). Com a lei nova, esta figura vai desaparecer: os CEME têm até 31 de dezembro de 2027 para passarem a operadores ou a prestadores de serviços de mobilidade elétrica (PSME).

  • EGME (a MOBI.E): gere a rede e os pagamentos. Em 2026, a ERSE fixou a tarifa da EGME em 0,1088 € por carregamento aplicada ao CEME e outros 0,1088 € ao OPC, ou seja, cerca de 0,22 € por carregamento que acabam incluídos no que pagamos.

  • Impostos: o imposto especial sobre a eletricidade (IEC) é de 0,001 €/kWh no continente, e o IVA de 23 % aplica-se a toda a fatura.

  • Ad hoc: carregar sem contrato, a pagar na hora (cartão bancário, QR code ou app). É o preço que a MOBI.E publica e o que usei nas tabelas.

Continente, Lidl, EDP, Galp e Tesla: o que convém saber

Continente Plug&Charge. É uma rede própria do Continente, fora do esquema CEME/OPC: paga-se só a energia, pela App Cartão Continente. Os preços oficiais são 0,35 €/kWh nos postos normais (até 22 kW), 0,41 €/kWh nos rápidos (até 120 kW) e 0,45 €/kWh nos ultrarrápidos (até 350 kW), com IVA. Com uma compra de mais de 30 € nas lojas aderentes, recebem um cupão de 0,10 €/kWh no Cartão Continente (um por dia, válido 10 dias). Na rede MOBI.E há também postos "Modelo Continente Hipermercados", com uma mediana de 0,37 €/kWh.

Lidl. Muita gente ainda pensa que carregar no Lidl é grátis. O Lidl diz ter cerca de 280 lojas com postos de carregamento, mas os postos que fui ver (Porto, Estarreja e Santiago do Cacém) estão na rede Galp, com 0,60 €/kWh de preço ad hoc. Ou seja: não contem com carregamento grátis e confirmem o preço no posto.

EDP. É o operador com mais pontos com preço na rede e o que tem a mediana mais baixa dos grandes: 0,13 €/kWh. Mas lembrem-se do aviso acima sobre o preço ao minuto.

Galp. Mediana de 0,60 €/kWh e 0,65 €/kWh nos postos de 150 kW ou mais, que são muitos dos que estão nas autoestradas. A Galp anuncia descontos Galp Electric na app Mundo Galp, nos postos aderentes da rede Galp e só na parte da energia, válidos até 31 de dezembro de 2026. Quem carrega muito na Galp deve fazer as contas com esse tarifário.

Tesla Supercharger. Nos pontos Tesla ligados à MOBI.E, o preço avulso tem uma mediana de 0,60 €/kWh, entre 0,46 e 0,83 €/kWh. A Tesla usa preço dinâmico: muda consoante a estação, a hora e a ocupação, e quem tem um Tesla (ou subscrição) paga menos do que o preço avulso. O valor exato aparece na app da Tesla antes de começarem a carregar. E se perguntam quanto custa carregar um Tesla em casa: é igual a qualquer outro elétrico, kWh × o preço do vosso contrato.

Ilustração minimalista de um carro elétrico ligado a um posto de carregamento rápido numa área de serviço de autoestrada

As contas: quanto custam 100 km e uma carga de 60 kWh

Para comparar, usei dois pressupostos: um consumo de 17 kWh/100 km (um valor médio razoável; em autoestrada gasta-se mais) e uma carga de 60 kWh, que é mais ou menos o que se mete numa bateria grande dos 10 aos 80 %. Não contei preços ao minuto, taxas por sessão nem descontos.

Onde carregar €/kWh 100 km (17 kWh) Carga de 60 kWh
Casa com painéis solares ≈ 0 € ≈ 0 € ≈ 0 €
EDP (mediana) 0,13 € 2,21 € 7,80 €
Casa, bi-horária (vazio) 0,14 € 2,39 € 8,44 €
Casa, tarifa simples 0,21 € 3,58 € 12,63 €
Continente (normal) 0,35 € 5,95 € 21,00 €
Mediana MOBI.E 0,37 € 6,29 € 22,20 €
Continente (ultrarrápido) 0,45 € 7,65 € 27,00 €
Tesla Supercharger (avulso, mediana) 0,60 € 10,20 € 36,00 €
Galp (mediana) 0,60 € 10,20 € 36,00 €
Galp (150 kW ou mais) 0,65 € 11,05 € 39,00 €

Contas feitas com os preços de 28/10/2026 indicados acima. Casa: tarifas reguladas ERSE com IVA (0,1406 €/kWh em vazio e 0,2105 €/kWh na simples), sem potência contratada.

Ou seja: a mesma carga de 60 kWh pode custar 0 € em casa com sol, uns 8 € em casa à noite ou 36 a 39 € num posto rápido da Galp. É uma diferença de quase cinco vezes entre a bi-horária e o posto rápido, e isso pesa muito no fim do mês.

Preciso de cartão para carregar um carro elétrico?

Não. Durante muitos anos, em Portugal, a regra foi ter um contrato com um CEME, que vos dava um cartão ou um porta-chaves (com chip, que se encosta ao posto) e, mais tarde, uma app. Esse cartão abria todos os postos da rede MOBI.E. Isso continua a existir e continua a dar jeito, mas já não é a única forma. Há três maneiras de pagar:

  1. Cartão ou porta-chaves com contrato. Encostam ao posto, a sessão começa e o carregamento vem na fatura do vosso fornecedor. É prático para quem carrega muito na rua e pode ter preços melhores.

  2. App no telemóvel. Escolhem o posto na app e carregam lá. Há apps com contrato e apps que deixam carregar ad hoc, só com um cartão bancário associado.

  3. Ad hoc no próprio posto, sem contrato nem registo. Leem o QR code do posto e pagam no telemóvel, ou encostam o cartão bancário (ou o telemóvel) ao terminal de pagamento do posto.

A própria MOBI.E explica que, na rede ligada a ela, se pode carregar com contrato (cartão ou app de um dos mais de 25 comercializadores) ou ad hoc, através de um QR code ou de um terminal de pagamento automático, nos postos mais recentes, ou de uma app que dê essa opção. E desde a lei de 2025 também se pode carregar nas redes que não estão ligadas à MOBI.E, igualmente por QR code, terminal de pagamento ou contrato com o operador.

Esquema com as três formas de pagar um carregamento: cartão ou porta-chaves com contrato, app no telemóvel com ou sem contrato, e QR code ou cartão bancário sem contrato

O que diz a lei sobre pagar sem cartão?

Há duas leis que interessam: o regulamento europeu AFIR e o novo regime jurídico da mobilidade elétrica português. Li as duas nos sítios oficiais e resumo o que interessa a quem conduz.

Regulamento europeu AFIR, o Regulamento (UE) 2023/1804, artigo 5.º:

  • Os operadores dos postos públicos têm de permitir o carregamento ad hoc, ou seja, sem contrato.

  • Os postos públicos instalados a partir de 13 de abril de 2024 têm de aceitar pagamento com um meio de pagamento muito usado na UE: um leitor de cartões, um aparelho sem contacto que leia cartões de pagamento ou, só nos postos abaixo de 50 kW, um meio através da internet, como um QR code.

  • A partir de 1 de janeiro de 2027, todos os postos públicos de 50 kW ou mais na rede rodoviária principal europeia (a RTE-T) e nas áreas de estacionamento seguras têm de ter leitor de cartão ou pagamento sem contacto, incluindo os instalados antes de 13 de abril de 2024. Um só terminal pode servir vários postos.

  • Mesmo que o carro ou o cartão iniciem a sessão automaticamente, o condutor tem sempre o direito de recusar e pagar ad hoc.

  • Os preços têm de ser razoáveis, fáceis de comparar, transparentes e não discriminatórios.

  • Nos postos de 50 kW ou mais, o preço ad hoc tem de ser por kWh, e pode haver uma taxa de ocupação ao minuto para desincentivar quem deixa o carro parado. Os dois valores têm de estar à vista no posto, antes de começar. Nos postos abaixo de 50 kW, têm de aparecer todas as componentes do preço, pela ordem: kWh, minuto, sessão e outras.

  • As apps e cartões (os prestadores de serviços de mobilidade) têm de mostrar todos os preços antes da sessão, por meios eletrónicos gratuitos, e não podem cobrar mais por carregarem noutro país da UE.

  • Nos postos de corrente contínua, o cabo tem de vir fixo ao posto (desde 14 de abril de 2025).

Lei portuguesa: o Decreto-Lei n.º 93/2025, de 14 de agosto, alterado pelo Decreto-Lei n.º 155/2026, de 31 de julho:

  • Cria o novo regime jurídico da mobilidade elétrica, revoga a lei de 2010 que criou o modelo MOBI.E e aplica o AFIR em Portugal.

  • Acaba com o CEME e torna obrigatória a opção ad hoc: deixa de ser preciso contrato para carregar.

  • Os postos públicos têm de dar acesso com ou sem contrato e permitir pagamento ad hoc com meios muito usados na UE, como cartões de pagamento ou QR codes. O acesso só pode ser limitado por incompatibilidade técnica.

  • Antes de cada carregamento, o posto tem de mostrar o preço ad hoc e todas as componentes: por kWh, por minuto ou por sessão, com tarifas e impostos.

  • Tem de estar indicada a taxa de ocupação, em euros por minuto, para quem fica no posto depois de a bateria estar cheia.

  • Nos postos de 50 kW ou mais que já estavam instalados, as regras dos meios de pagamento aplicam-se a partir de 1 de janeiro de 2027.

  • Período de transição até 31 de dezembro de 2027 (prazo alargado pelo DL 155/2026, que antes era 31/12/2026): a plataforma da MOBI.E continua a funcionar até lá, os operadores podem dizer se querem sair dela, a tarifa da MOBI.E é fixada pela ERSE e tem de aparecer à parte na fatura, e os CEME têm até essa data para se transformarem em operadores e/ou PSME.

O que muda na prática para vocês:

  • Não precisam de cartão nem de contrato para carregar num posto público. Podem pagar ad hoc, por app, QR code ou cartão bancário.

  • Nos postos mais antigos, o ad hoc pode ainda ser só por app ou QR code. Nos postos de 50 kW ou mais das autoestradas e estradas principais, o leitor de cartão bancário tem de lá estar a partir de 1 de janeiro de 2027.

  • O preço tem de estar à vista antes de carregarem, com impostos incluídos.

  • O cartão de um comercializador continua a ser uma opção, que pode compensar se carregam muito na rua. Até ao fim de 2027 vão ver os CEME a mudar de nome e de modelo.

Posso carregar pela app? Quais apps funcionam em Portugal?

Sim. Há apps para encontrar postos, ver o preço e pagar. Fui confirmar nos sites oficiais o que cada uma faz. Esta lista não é de todas as apps que existem, é das que verifiquei:

App Para que serve Onde funciona
MOBI.E: Encontrar Posto (site) mapa oficial, disponibilidade em tempo real e tarifários; não serve para pagar postos ligados à MOBI.E
miio app e cartão para carregar e pagar; QR code ad hoc nos postos parceiros, com cartão, Apple Pay ou Google Pay Portugal, Espanha e França (mais de 285 000 postos, segundo a miio)
EDP Charge mapa, tarifários, cartão EDP Charge, iniciar e terminar pelo telemóvel; gere também o carregador de casa rede pública e carregadores EDP
App IONITY carregar e pagar nos IONITY, com ou sem subscrição Power ou Motion rede IONITY e mais de 11 000 pontos parceiros na Europa
App Cartão Continente é a única forma de pagar no Continente Plug&Charge; cupão de 0,10 €/kWh postos Continente Plug&Charge
Mundo Galp descontos Galp Electric na parte da energia, até 31/12/2026 postos aderentes da rede Galp
Electromaps mapa de postos e pagamento de sessões nos postos compatíveis vários países, incluindo Portugal
Chargemap mapa, planeador de viagens e cartão Chargemap Pass Europa, incluindo Portugal

Funcionalidades descritas nos sites oficiais de cada app, consultados a 28/10/2026.

A MOBI.E tem também uma lista oficial de apps que, segundo a MOBI.E, deixam carregar ad hoc em Portugal de imediato, sem validações prévias: ACP Electric, eVaz Energy, EVIO, miio, Moeve, myAtlante, Octopus Electroverse, Wenea e Zunder. A própria MOBI.E recomenda instalar e testar a app antes de ir de viagem, e eu assino por baixo.

E os Tesla Supercharger? A MOBI.E publica preços para 192 pontos Tesla, todos de 150 kW ou mais, e é com esses dados que fiz as contas acima. Para outros carros, a Tesla trabalha pela sua própria app, mas não consegui confirmar as condições no site oficial da Tesla, por isso não as ponho aqui.

Que fichas preciso? Tipo 2 e CCS2

Na Europa, as fichas que interessam são duas, e o AFIR obriga a que existam nos postos públicos:

  • Tipo 2 (também chamada Mennekes): é a ficha de corrente alternada (AC). Está nos carregadores de casa e nos postos normais. Nos postos AC, muitas vezes levam o vosso próprio cabo Tipo 2.

  • CCS2 (Combo 2): é a ficha de corrente contínua (DC), a dos postos rápidos e ultrarrápidos. É a ficha Tipo 2 com dois pinos grossos por baixo. Nestes postos, o cabo vem sempre no posto.

Há ainda alguns postos com CHAdeMO, uma ficha usada sobretudo por modelos japoneses mais antigos. No mapa da MOBI.E podem filtrar os postos pela ficha.

Esquema simplificado das fichas Tipo 2, de corrente alternada, e CCS2 Combo 2, de corrente contínua, com dois pinos grossos por baixo

AC ou DC: qual é a diferença de velocidade?

Em AC (corrente alternada), a energia é convertida pelo carregador que está dentro do carro, e é isso que limita a velocidade. Em DC (corrente contínua), a conversão é feita no posto e a energia vai diretamente para a bateria, por isso é muito mais rápido. A DGEG usa estas categorias:

Tipo Potência Categoria
AC menos de 7,4 kW lento
AC 7,4 a 22 kW médio
AC mais de 22 kW rápido
DC menos de 50 kW lento
DC 50 a 150 kW rápido
DC 150 a 350 kW ultrarrápido (nível 1)
DC 350 kW ou mais ultrarrápido (nível 2)

Categorias publicadas pela DGEG nas perguntas frequentes sobre mobilidade elétrica, consultadas a 28/10/2026.

Em casa e no trabalho, o AC chega e sobra, porque o carro fica parado muitas horas. Em viagem, o DC é que faz a diferença. E lembrem-se: o carro só carrega à potência que ele próprio aguenta, por isso um posto de 350 kW não faz milagres num carro que só aceita 100 kW.

Porque há preço ao minuto e taxa de ocupação?

O preço ao minuto paga a ocupação do posto, e não a energia. Num posto rápido, um carro parado sem carregar impede outro de carregar. Por isso a lei portuguesa obriga a indicar a taxa de ocupação em euros por minuto, para quem fica no posto depois de a bateria estar cheia, e o AFIR permite essa taxa nos postos de 50 kW ou mais para desincentivar quem deixa o carro parado.

Na prática: um carro que carrega devagar (por exemplo, num posto AC, ou com a bateria fria) paga mais num posto ao minuto do que num posto ao kWh. E se deixam o carro ligado depois de carregado, a conta continua a subir. Tirem o carro do posto quando acabar.

Como saber o preço antes de carregar?

  • No posto: a lei obriga a mostrar o preço ad hoc e todas as componentes, com impostos, antes de começarem. Nos postos de 50 kW ou mais, o preço por kWh e a taxa de ocupação têm de estar à vista.

  • Na app: as apps e os cartões têm de mostrar todos os preços antes da sessão. Confirmem se o preço é por kWh, por minuto, por sessão ou uma mistura.

  • No site da MOBI.E: no Encontrar Posto veem a disponibilidade e o tarifário de cada posto ligado à MOBI.E.

  • Façam as contas: kWh que vão meter × preço por kWh, mais minutos × preço ao minuto, mais a taxa por sessão, se houver.

Carregar em casa: wallbox, painéis solares e bi-horária

É aqui que se poupa a sério. Algumas coisas que convém saber:

  • Wallbox ou tomada? Uma wallbox (carregador de parede) carrega em AC com a ficha Tipo 2, com mais potência e mais segurança do que uma tomada normal. Também permite programar as horas e, nalguns casos, carregar só com o excedente solar.

  • Quem pode instalar: segundo a DGEG, só uma entidade instaladora de instalações elétricas ou um técnico responsável registado na DGEG. Um técnico a título individual só pode assumir instalações até 41,4 kVA; acima disso, tem de ser uma entidade instaladora.

  • Painéis solares e bateria: carreguem de dia, quando os painéis produzem. Com uma bateria em casa, o que sobra fica guardado para a noite. Eu tenho painéis solares com uma Tesla Powerwall 3, instalada com a Solmaior, e é o sistema que recomendo (mostrei-o neste vídeo). Mas claro que há outras opções no mercado: outras marcas de baterias para casa e vários instaladores de painéis solares. Peçam mais do que um orçamento e comparem.

  • Sem painéis: a bi-horária com carregamento à noite, nas horas de vazio, fica em cerca de 0,14 €/kWh nas tarifas reguladas da ERSE.

  • Num prédio: quem é condómino, arrendatário ou ocupante pode instalar um carregador no seu lugar de garagem. Tem de avisar o condomínio por escrito, com 30 dias de antecedência. O condomínio só se pode opor em casos limitados, por exemplo se instalar um carregador partilhado que sirva toda a gente em 90 dias ou se houver risco real para a segurança, e tem 30 dias para decidir.

Erros comuns a carregar um carro elétrico

  • Achar que carregar no Lidl é grátis. Nos postos que vi, é 0,60 €/kWh.

  • Olhar só para o preço por kWh. Há postos que também cobram ao minuto ou por sessão.

  • Deixar o carro no posto depois de carregado. A taxa de ocupação pode sair cara.

  • Ir a um posto lento com pressa. Vejam a potência no mapa antes de sair da autoestrada.

  • Encher até aos 100 % num posto rápido. A partir dos 80 %, a potência cai muito. Em viagem, compensa parar duas vezes.

  • Instalar a app só quando estão em frente ao posto. Instalem e testem em casa, com o cartão bancário já associado.

  • Carregar em casa fora das horas de vazio quando têm bi-horária.

  • Pôr um amigo a fazer a instalação em casa. Tem de ser um técnico ou uma entidade registada na DGEG.

A minha conclusão: não há nada mais barato do que carregar em casa

Depois de fazer estas contas todas, a conclusão é aquela que eu já sentia na carteira: não há nada mais barato do que carregar em casa, e com painéis solares é praticamente de graça. É por isso que eu carrego quase sempre no estúdio, de dia, com o sol e a Powerwall, que é o sistema que tenho e recomendo (há outras opções, claro), e só uso os postos rápidos quando estou em viagem, quase sempre nos IONITY de Leiria, na A1, pela app da IONITY.

Se não têm painéis, a bi-horária com carregamento à noite já faz uma diferença enorme. Na rua, o Continente é das opções mais em conta, e a EDP pode sair muito bem, desde que confirmem o preço ao minuto. Os postos ultrarrápidos das autoestradas são os mais caros, mas, para quem viaja, o tempo também conta. E é aí que um carro de 800 V faz valer cada cêntimo. Quanto ao cartão: já não é obrigatório, mas tenham pelo menos uma app instalada e testada antes da viagem.

E vocês, onde carregam? Se ainda estão a escolher carro, vejam também o meu artigo sobre o carro elétrico mais barato em Portugal. 🚗⚡

Perguntas rápidas

Quanto custa carregar um carro elétrico em Portugal?
Em casa, cerca de 0,14 €/kWh na bi-horária (vazio) e 0,21 €/kWh na tarifa simples. Na rede pública MOBI.E, a mediana do preço ad hoc era 0,37 €/kWh a 28/10/2026, com IVA.

Quanto custa carregar um carro elétrico em casa?
Depende do tarifário. Com as tarifas reguladas da ERSE desde 01/10/2026, uma carga de 60 kWh custa cerca de 8,44 € em horas de vazio e 12,63 € na tarifa simples. Com painéis solares, o excedente do dia fica praticamente a custo zero.

Preciso de cartão para carregar um carro elétrico?
Não. A lei obriga os postos públicos a deixar carregar sem contrato (ad hoc), por app, QR code ou cartão bancário. Os postos de 50 kW ou mais nas estradas principais europeias têm de ter leitor de cartão ou pagamento sem contacto a partir de 01/01/2027.

Posso pagar um carregamento com o cartão do banco?
Sim, nos postos que têm terminal de pagamento ou QR code. Os postos públicos instalados desde 13/04/2024 têm de aceitar um meio de pagamento muito usado na UE, e nos mais antigos de 50 kW ou mais das estradas principais isso passa a ser obrigatório a 01/01/2027.

Que apps funcionam em Portugal para carregar?
Entre as que verifiquei: miio, EDP Charge, App IONITY, App Cartão Continente, Mundo Galp, Electromaps e Chargemap. A MOBI.E indica também ACP Electric, eVaz Energy, EVIO, Moeve, myAtlante, Octopus Electroverse, Wenea e Zunder para carregar sem contrato.

Quanto custa carregar nos IONITY?
A 28/10/2026, a IONITY indicava para Portugal 0,63 €/kWh no IONITY Direct (sem registo), 0,59 €/kWh na app e a partir de cerca de 0,37 €/kWh com a subscrição Power (11,99 €/mês). Na rede MOBI.E, a mediana nos postos IONITY era 0,51 €/kWh.

Qual é o preço do carregamento no Continente?
No Continente Plug&Charge: 0,35 €/kWh nos postos normais, 0,41 €/kWh nos rápidos e 0,45 €/kWh nos ultrarrápidos, com IVA. Com compras acima de 30 € recebem 0,10 €/kWh em cupão no Cartão Continente.

O carregamento no Lidl é grátis?
Não nos postos que consultei a 28/10/2026: estão na rede Galp e custam 0,60 €/kWh (preço ad hoc publicado pela MOBI.E).

Quanto custa carregar um Tesla?
Em casa, o mesmo que qualquer elétrico. Nos Superchargers, a Tesla usa preço dinâmico; nos pontos Tesla da rede MOBI.E, o preço avulso tem uma mediana de 0,60 €/kWh. O preço exato aparece na app da Tesla.

Qual é o carregamento mais barato?
Em casa, sobretudo com painéis solares ou na bi-horária. Na rua, os 10 % de pontos mais baratos da rede MOBI.E ficavam até 0,10 €/kWh, mas confirmem sempre se há preço ao minuto.

Têm dúvidas? Deixem-nas nos comentários do meu último vídeo no YouTube, que eu vou lá responder!

📸 Instagram: @nunoseemee
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Fontes (consultadas a 28/10/2026): preços de carregamento da rede MOBI.E (combustivel.com.pt), MOBI.E: custo do carregamento, MOBI.E: novo regime jurídico, MOBI.E: viajar com um veículo elétrico (apps), Decreto-Lei n.º 93/2025, Decreto-Lei n.º 155/2026, Regulamento (UE) 2023/1804, AFIR, DGEG: perguntas frequentes sobre mobilidade elétrica, ERSE: tarifas a partir de 1 de outubro de 2026 (PDF), ERSE: tarifas da EGME para 2026 (PDF), IONITY em Portugal, IONITY: subscrições, Continente Plug&Charge, Lidl: mobilidade elétrica, posto Lidl no Porto (dados MOBI.E), Galp Electric e PlugNow: Continente Plug&Charge. Imagens: ilustrações criadas para este artigo.

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